Inchaço, gases, alterações intestinais e desconforto depois das refeições são frequentemente associados ao SIBO. Mas sintomas semelhantes podem ter origens muito diferentes — e mesmo quando o teste para SIBO é positivo, ainda há uma pergunta importante por responder: porque aconteceu?
Nos últimos anos, o SIBO — Small Intestinal Bacterial Overgrowth, ou sobrecrescimento bacteriano do intestino delgado — passou de um termo praticamente desconhecido fora do contexto clínico para um dos diagnósticos mais falados quando o tema é saúde intestinal.
Recentemente, voltou a ganhar visibilidade depois de a influenciadora Helena Coelho ter partilhado publicamente o seu diagnóstico, após procurar respostas para um inchaço abdominal persistente. A própria notícia refere sintomas como barriga inchada, gases, arrotos, desconforto abdominal, sensação de enfartamento, diarreia ou obstipação.
O problema é que nenhum destes sintomas é exclusivo de SIBO.
E é precisamente aqui que começa uma das questões que considero mais importantes quando avaliamos sintomas gastrointestinais: sintomas semelhantes não significam necessariamente o mesmo diagnóstico.
Uma barriga inchada não é um diagnóstico
Imagine duas pessoas que chegam à consulta com uma queixa aparentemente igual:
“Depois de comer fico com a barriga muito inchada.”
Uma pode ter SIBO.
Outra pode apresentar uma alteração da motilidade gastrointestinal.
Outra pode ter dificuldade na digestão ou absorção de determinados nutrientes.
Noutra, pode existir intolerância à histamina.
Noutra, podemos estar perante uma condição gastrointestinal funcional, doença celíaca ou outra patologia gastrointestinal.
E, em determinados indivíduos sensibilizados ao níquel, pode justificar-se investigar se existe uma relação entre a exposição ao níquel e determinadas manifestações sistémicas — embora esta seja uma área em que a evidência científica permanece controversa.
É por isso que tratar o sintoma como se fosse um diagnóstico pode levar-nos na direção errada.
Distensão abdominal, gases, dor abdominal, diarreia ou obstipação são manifestações extremamente inespecíficas. São pistas. Não são, isoladamente, uma resposta.
Nem tudo é SIBO
O aumento da informação disponível sobre saúde intestinal teve uma vantagem evidente: hoje, muitas pessoas percebem que viver permanentemente inchadas, com dor ou com alterações intestinais não deve simplesmente ser normalizado.
Mas existe também o outro lado.
Quando um determinado diagnóstico começa a ser muito falado, surge facilmente a tendência de interpretar qualquer conjunto de sintomas à luz desse diagnóstico.
Tenho inchaço? Pode ser SIBO.
Tenho gases? SIBO.
Tenho diarreia ou obstipação? SIBO.
Não digiro bem determinados alimentos? Outra vez SIBO.
E não é assim tão simples.
Aliás, mesmo quando existe efetivamente SIBO, para mim a investigação não termina no resultado positivo.
Começa uma nova pergunta: porque é que este sobrecrescimento aconteceu?
SIBO pode ser uma consequência — e isso muda a abordagem
O nosso intestino delgado dispõe de vários mecanismos que ajudam a impedir uma proliferação bacteriana excessiva.
A motilidade intestinal é um deles. A acidez gástrica, as secreções pancreáticas e biliares, a integridade anatómica gastrointestinal e diferentes mecanismos imunitários também contribuem para esse equilíbrio.
Quando alguns destes mecanismos estão comprometidos, podem criar-se condições favoráveis ao desenvolvimento de SIBO.
A literatura descreve, por exemplo, associações com alterações da motilidade intestinal, alterações anatómicas, diminuição da secreção ácida gástrica, alterações pancreatobiliares e determinadas doenças sistémicas.
Ou seja, em muitos casos, SIBO não deve ser encarado apenas como um problema isolado, mas como uma consequência de fatores que favoreceram aquele sobrecrescimento bacteriano.
É uma distinção importante.
Porque se nos limitarmos a reduzir as bactérias presentes no intestino delgado sem perceber o que permitiu que ali proliferassem, podemos estar a atuar apenas numa parte do problema.
“Mas o meu teste de SIBO deu positivo”
Um teste positivo é informação clínica relevante.
Mas não responde a todas as perguntas.
Se existe sobrecrescimento bacteriano, importa perceber o contexto em que surgiu.
Como está a motilidade intestinal?
Existe obstipação?
Há alterações anatómicas ou cirurgias gastrointestinais anteriores?
Existem medicamentos que possam estar a interferir?
Como está a função digestiva?
Existem patologias ou condições associadas que possam estar a contribuir?
Há alterações na secreção gástrica, pancreática ou biliar que mereçam investigação?
É por isso que o objetivo não deveria ser simplesmente:
“Tenho SIBO. Como é que o elimino?”
Mas também:
“Porque desenvolvi SIBO e o que poderá estar a favorecer a sua manutenção ou recorrência?”
Esta diferença é particularmente importante quando encontramos pessoas que já fizeram sucessivos tratamentos, melhoraram durante algum tempo e, semanas ou meses depois, voltaram exatamente ao mesmo ponto.
E se for intolerância à histamina?
A intolerância à histamina é outro exemplo interessante de como diferentes mecanismos podem produzir sintomas que, à primeira vista, parecem semelhantes.
A histamina é uma molécula naturalmente produzida pelo organismo e está também presente, em diferentes concentrações, em determinados alimentos.
Quando existe um desequilíbrio entre a quantidade de histamina acumulada e a capacidade do organismo para a metabolizar, podem surgir manifestações muito variadas.
E não são necessariamente apenas digestivas.
Podem existir sintomas gastrointestinais como distensão abdominal, dor, diarreia, náuseas ou desconforto depois das refeições, mas algumas pessoas apresentam também manifestações extraintestinais, como cefaleias, congestão nasal, alterações cutâneas, palpitações ou flushing.
Isto também não significa que qualquer pessoa com estes sintomas tenha intolerância à histamina.
Aliás, o diagnóstico continua a ser complexo: os sintomas são inespecíficos e não existe atualmente um único biomarcador validado que, isoladamente, permita estabelecer o diagnóstico de forma inequívoca.
Mais uma vez, é o conjunto da história clínica que importa.
E se for o níquel?
Este talvez seja um dos exemplos menos óbvios.
Quando pensamos em alergia ao níquel, pensamos habitualmente numa reação ao contacto com brincos, relógios, botões, moedas ou outros objetos metálicos.
Mas o níquel também está naturalmente presente nos alimentos.
Existe literatura sobre a chamada síndrome de alergia sistémica ao níquel, na qual indivíduos sensibilizados podem apresentar manifestações sistémicas após exposição ao níquel, incluindo manifestações cutâneas e gastrointestinais.
No entanto, este é precisamente um bom exemplo da importância de não transformar hipóteses clínicas em diagnósticos automáticos.
A relação entre níquel alimentar e sintomas gastrointestinais continua a ser debatida na literatura científica, os critérios de diagnóstico não são consensuais e uma publicação recente de 2026 voltou a chamar a atenção para as limitações da evidência disponível.
Portanto, ter alergia de contacto ao níquel não significa automaticamente que os sintomas intestinais sejam provocados pelo níquel presente na alimentação.
Mas, perante uma história clínica compatível, pode ser uma peça que merece ser considerada e investigada adequadamente.
E, sobretudo, recorda-nos de uma coisa: aquilo que parece SIBO pode não ser SIBO.
Os mesmos sintomas. Diagnósticos diferentes. Tratamentos diferentes.
É talvez esta a mensagem mais importante deste artigo.
Uma pessoa com distensão abdominal, gases e alterações do trânsito intestinal pode ter SIBO.
Pode ter intolerância à histamina.
Pode existir uma associação com determinados componentes alimentares.
Pode existir uma alteração da motilidade.
Pode existir uma condição gastrointestinal que ainda não foi diagnosticada.
Podem coexistir vários mecanismos.
E pode, inclusivamente, existir SIBO e outra condição simultaneamente.
É precisamente por isso que duas pessoas com sintomas praticamente iguais não deveriam receber automaticamente a mesma intervenção.
Na saúde intestinal, aquilo que vemos à superfície — o inchaço, os gases, a diarreia, a obstipação, a dificuldade digestiva — é apenas uma parte da história.
O diagnóstico não deve ser o fim da investigação
Encontrar um diagnóstico pode trazer finalmente um nome para sintomas que existem há meses ou anos. E isso é importante.
Mas encontrar um nome não significa necessariamente que tenhamos encontrado a origem do problema.
No caso do SIBO, tratar o sobrecrescimento bacteriano pode ser necessário. Mas, sempre que possível, é igualmente importante perceber o terreno que permitiu que esse sobrecrescimento acontecesse.
E quando os sintomas persistem apesar de sucessivas intervenções dirigidas ao SIBO, talvez a pergunta já não deva ser:
“O que posso fazer novamente para tratar o SIBO?”
Talvez deva ser:
“E se não for apenas SIBO? E se estivermos a procurar no sítio errado?”
É esta mudança de perspetiva que muitas vezes permite sair de uma sucessão de dietas restritivas, suplementos e tratamentos repetidos sem compreender verdadeiramente o que está por detrás dos sintomas.
Na minha prática clínica, procuro precisamente fazer essa avaliação de forma individualizada: integrar sintomas, história clínica, alimentação, função gastrointestinal, antecedentes, medicação e, quando existe indicação clínica, análises e testes específicos.
Porque o objetivo não é simplesmente encontrar um diagnóstico que encaixe nos sintomas.
É compreender o que pode estar a provocar esses sintomas naquela pessoa.
E isso pode fazer toda a diferença na estratégia que escolhemos a seguir.
Referências
Rezaie A, et al. ACG Clinical Guideline: Small Intestinal Bacterial Overgrowth. American Journal of Gastroenterology. 2020.
Ahmed JF, et al. Aetiology, diagnosis and management of small intestinal bacterial overgrowth. Frontline Gastroenterology. 2023.
Jochum C. Histamine Intolerance: Symptoms, Diagnosis, and Beyond. Nutrients. 2024.
Schnedl WJ, et al. Histamine Intolerance Originates in the Gut. Nutrients. 2021.
Freeman A, et al. Systemic Nickel Allergy Syndrome. American Journal of Medicine Open. 2026.
Giovannetti A. Systemic Nickel Allergy Syndrome: A Critical Appraisal of an Unvalidated Diagnostic Entity. Clinical and Translational Allergy. 2026.


